Ritual & Performance é um território de interfaces vários, de trajectos múltiplos e de destinos indecifráveis. É um lugar de discussão, criação e testemunho de ideias e materiais, formas e objectos, debates e conceitos que possam amplificar o espaço de existência de uma disciplina académica. Nasce num Departamento de Antropologia (ISCTE, Lisboa) mas propõe-se ser um projecto interdiscipinar e sem fronteiras.
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10 comments:
Maria Mabel – 29023- AC1 disse:
“O teatro dramático Tchiloli de São Tomé e Príncipe, tem componentes enraizados em valores morais locais que enfatizam a traição, a sedução e a justiça. É representado em várias versões e sujeito a diversas interpretações e ainda hoje se questiona a origem e os porquês desta manifestação artística são-tomense que segundo alguns vem desde o passado colonial e se baseia em textos escritos inspirados na gesta carolíngia. Realiza-se num cenário de rito onde “paira” a morte e os espíritos dos figurantes consagrados falecidos. Num tempo que se mistura e num espaço onde os figurantes e o público participante interagem numa atmosfera de rito colorido com a predominância da cor preta, música com batucada e flauta, gestos e manifestações corporais que oscilam entre a mímica e o êxtase e ofertas aos espíritos. Hoje em dia tornou-se mais frequente os figurantes usaram óculos escuros e pó de talco em vez das “tradicionais” máscaras cujo objectivo do uso consiste em esconder as verdadeiras identidades dos figurantes e alertar os demais dos perigos que implicam os jogos sociais de poder. Enfim, penso que o texto de Paulo Valverde é interessante e óptimo para reflectir em temas como a corrupção e a justiça, mas também no modo salutar e ligeiro com que os são-tomenses encaram a dureza da vida...”
2. Aproveito a ocasião para falar do meu trabalho final. Penso que já está a ficar tarde para reunir o material e começar as leituras, por isso, venho comunicar que decidi embarcar num tema referente ao texto da Esther Langdon. Tive conhecimento pela minha colega Carla que o professor lhe indicou outros textos referentes ao mesmo texto e quero perguntar ao professor se posso utilizar os mesmos ou se me indica outros ou ainda se concorda com esta minha decisão.
Este texto foi aquele que, até agora me suscitou mais interesse pelo misticismo e simbologia associados ao acto performativo trágico (Tchiloli).
Esta performance já sofreu várias modificações ao longo do tempo acompanhando as mudanças sócio-culturais, e representando a cultura e a identidade de São Tomé. Representa uma realidade imaginada de um tempo e de um espaço distantes, pelo que a sua interpretação é ambígua e única para cada indivíduo.
Envolve diálogos mas comunica essencialmente através do movimento, dos trajos e gestos extravagantes, da música e de toda a dinâmica envolvente, tendo uma acção lúdica e moralizadora: aborda problemas e dilemas relacionados com a condição humana: a fatalidade da morte, o poder e a justiça social, as relações sociais, a família, a lealdade, a traição e a vida em sociedade.
Um dos aspectos que considerei mais interessante nesta performance é a sua espontaneidade tendo em conta que se trata de um acto performativo que envolve improvisação, sendo cada evento único e singular. O seu objectivo é levar os espectadores a uma reflexão profunda e pessoal sobre a sua própria existência e sobre o mundo que os rodeia e no qual estão inseridos.
Actores, figurantes e inclusivamente os próprios espectadores assumem um papel activo e dinâmico, envolvendo-se no enredo performativo e movimentando-se no espaço aberto onde a performance se desenvolve. Este espaço não apresenta fronteiras bem definidos, não se distinguindo com clareza onde termina a representação e começa a “vida real”.
O principal objectivo é despertar consciências para questões inerentes à condição humana e, por isso mesmo, intemporais.
Gostei muito de ambos os textos, mas após ler com mais atenção o artigo do Paulo Valverde, despertou-me atenção a abordagem que este autor faz da fenomenologia do ritual e da performance. O teatro dramático Tchiloli é uma história teatral enraizada na cultura de São Tomé e Príncipe. Ao longo do texto, o autor procura compreender e analisar de que forma é que aquela festa se relaciona com a essência do ser dos São-Tomenses. Ele analisa também a estrutura do teatro Tchiloli, como este se constrói, como se caracteriza e quais os seus elementos principais. Este teatro pressupõe uma revelação, em que toda a sua história se desenvolve em torno de um jogo, em que a durabilidade deste é variável, ou seja, o espaço de interacção está constantemente a ser modificado. Neste jogo, os indivíduos são postos numa situação de ambiguidade, como se isso fizesse mesmo parte da condição do ser São-Tomense. Elementos como a corrupção e a justiça perspectivam uma dupla escolha e esta escolha está enraizada em qualquer sociedade, desta forma, o texto do Paulo Valverde faz-nos reflectir sobre estas situações, como se fosse um jogo entre o bem e o mal.
O texto de Maria Laura Cavalcanti faz uma desconstrução simbólica de dois festivais realizados no Carnaval brasileiro, o desfile das escolas de samba e os Bois-Bumbás de Parintins. Sendo a autora discípula de Claude Levi-Strauss, ela aborda o artigo segundo a sua perspectiva estruturalista e desta forma faz uma desconstrução da realidade através de oposições e comparações entre estes dois espectáculos. Ela aborda também as componentes rituais de cada festa e propõe assim um jogo de significados, em que estes são diferenciados pelo tempo e espaço de cada festividade.
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Gostei especialmente do texto de Maria Cavalcanti. Traz-me à memória o tempo em que a dança fazia parte da minha vida, o tempo em que a exteriorização dos meus sentimentos era feita pelo ritmo e movimento “Não falamos sobre o corpo mas sim a partir dele e com ele” (Mauss, 1978).
A dança envolve-nos num ambiente secreto onde aquilo que nos move não é visto a olho nu e, por isso mesmo, “Visão é a metamorfose das coisas em sua visão”. A visão não se reduz a uma forma de pensamento pois não basta pensar para ver.
Concordo, também, que “ritos são portas de entrada privilegiadas para a compreensão de uma sociedade”. A partir dos ritos podemos conhecer muito mais do que aquilo que a própria visão alcança. Os ritos são o descortinar de mistérios e de personalidades até então desconhecidas.
Fiquei somente com uma dúvida que me fez pensar mas sem chegar a uma conclusão clara: “Quando um sambista explica a um leigo o significado de dois itens de julgamento, a evolução e a harmonia, ele dirá que a evolução pode ser julgada por uma pessoa surda e a harmonia por uma pessoa cega”. Porquê?
O texto de Maria Laura Calvacanti agradou-me muito.
A autora afirma que os "ritos são portas de entrada privilegiadas para a compreensão de uma sociedade, conduzem a seu centro vital do ponto de vista moral e cognitivo", estou totalmente de acordo com esta esta afirmação pois penso que os ritos são uma reflexão dos pensamentos e comportamentos da cultura que os pratica. Ou seja, a observação dos ritos é um modo privilegiado para podermos perceber melhor qual o funcionamento daquela cultura/sociedade.
Gostei especialmente do texto de Paulo Valverde pois expõe uma perspectiva bastante interessante que me faz pensar. O teatro dramático aqui apresentado representa uma história muito característica de São Tomé e Príncipe que aborda questões tais como a justiça, família, corrupção, sociedade entre outras fazendo-nos reflectir sobre as mesmas. Sendo que, estes aspectos são concretizados através do movimento, música, gestos e vestes, existindo improvisação na qual todos os participantes têm um papel muito activo envolvendo-se no enredo.
O texto de Paulo Valverde foi o que mais me interessou, uma vez que me senti como que transportada para outra realidade.
O Tchiloli de São-Tomé é como que uma "viagem no tempo", em que a actividade performativa decorre com personagens de um tempo distante, contudo, apesar desde aparente afastamento temporal, o Tchiloli não perde a sua familiaridade devido aos saberes partilhados e à sua repetição ao longo dos anos.
O cânone performativo desta prática é evidente nos movimentos, nos trajes, nas palavras e na música, todavia também é importante reconhecer as estratégias desenvolvidas pelos grupos e elementos a fim de se criar originalidade.
Um dos mais aspectos que mais me fascinou no Tchiloli foi a sua potencialidade, sendo considerado pelos participantes como uma manifestação cultural superior, tem a capacidade de estimular a reflexão sobre problemas e dilemas cruciais na experiência humana, levando os espectadores a teorizarem sobre eles próprios e sobre a sociedade, ao mesmo tempo que também adquire uma vertende de divertimento.
Paulo Valverde, explicíta que esta actividade performativa não decorre isolada, pois dá-se uma constante interacção entre personagens e público, estando o público inclusivamente autorizado a circular no recinto onde decorre a performance, bem como a repetir frases ou a imitar movimentos, reactivando a sua própria memória corporal e integrando a performance.
Outro aspecto a salientar é o acompanhamento temporal do Tchiloli, que vai integrando vários aspectos culturais, não sendo estável.
Este texto alertou-me para o facto de existem diferentes maneiras de expressão e de passagem de mensagens, pois o Tchiloli é uma comunicação activa e mútua entre os são-tomenses.
"Fiquei somente com uma dúvida que me fez pensar mas sem chegar a uma conclusão clara: “Quando um sambista explica a um leigo o significado de dois itens de julgamento, a evolução e a harmonia, ele dirá que a evolução pode ser julgada por uma pessoa surda e a harmonia por uma pessoa cega”. Porquê?"
Porque no samba para uma análise profunda, os sentidos precisam ser "domesticado", de maneira que pra esses critérios determinados sentidos devem ser "mais" apurado que outros. Dizem que um surdo enxerga melhor e um cego escuta melhor.
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